Inquérito Civil Público contra o Aqui PE realizou sua primeira Audiência Pública

October 10, 2017

Se 10 pessoas passarem por uma mesma situação, vamos ter 10 versões sobre o que aconteceu. Narrar é mais do que contar um causo, é construir mundos, contextos, onde os acontecimentos se encaixam. A narrativa, então, diz muito mais sobre o narrador do que sobre o fato. O que aconteceu serve como ponto de encontro para que opiniões e visões de mundo se aproximem ou se confrontem.

 

O jornalismo é uma forma muito poderosa de narrar o mundo. Poderosa porque sua mensagem chega a muitas pessoas, de forma massiva e sob o “véu” de extrair e comunicar exatamente o que acontece.  

 

O perigo do jornalismo e da massificação das histórias contadas por essas grandes e poucas empresas que dominam as narrativas no Brasil é o mesmo “Perigo da História Única”, descrito pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie, que você confere aqui:

 

 


 

Histórias contadas da mesma forma, repetidas vezes, por anos e anos, empobrecem e limitam o nosso mundo.

 

Quando um jornal popular, que chega às classes sociais com maior carência de direitos e com baixa cidadania,  traz em seu conteúdo o corpo morto de uma mulher negra, jogado ao chão, com sua genitália exposta, a notícia pode até ser o assassinato de uma mulher, mas a mensagem é outra, ainda pior.

 

A mensagem é a que mulheres negras podem ser assassinadas, estupradas e que seus corpos, totalmente violados, ainda servem para vender jornal, ainda servem ao mercado. Todas as formas de violência são naturalizadas, passam a caber em mundos, deixam de ser passíveis de serem combatidas e passam a ser justificadas.

 

No mundo criado pelo jornal Aqui PE, Diana não é uma mulher que teve sua vida interrompida, uma pessoa assassinada a quem a sociedade deve justiça. Ela é um objeto que atrai curiosidade, não empatia. Assim como ela, também não é digna de empatia a mulher que morre nas mãos do marido, a que é agredida, estuprada, violentada. As negras e pobres, menos ainda.

 

A abordagem do jornal feriu o Código de Ética dos Jornalistas, a Constituição Federal e rendeu a abertura de um Inquérito Civil Público, instaurado pelo Ministério Público de Pernambuco, a pedido de mais de 20 entidades de luta pelos Direitos Humanos e do Sindicato de Jornalistas de Pernambuco.

 

Mais informações sobre o inquérito você encontra aqui

A nota de repúdio e pedido de retratação do Aqui PE, elaborada pelas entidades, você encontra aqui

 

 

 

Na última sexta-feira, (06/10), cumprindo a primeira etapa do Inquérito, foi realizada uma audiência pública na Promotoria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos do Ministério Público de Pernambuco. A ata da audiência você encontra aqui. 

 

 

 

Como encaminhamento da audiência, foram sugeridas ao Aqui PE, pelas entidades participantes, algumas propostas, como forma de reparar o dano causado com a publicação:

  1. retratação na capa do Aqui PE,

  2. publicação de uma série de reportagens sobre a garantia de direitos no meio impresso e nas redes sociais, com destaque para direitos da população negra e socioeconomicamente excluída,

  3. apoio na realização de um seminário sobre direito à comunicação,

  4. capacitação da equipe para que episódios como este não aconteçam novamente

  5. Divulgação de campanha, nas redes sociais, sobre direitos humanos

 

 

No próximo dia 23, uma segunda audiência será realizada no MPPE. Na ocasião, o jornal Aqui PE dirá quais sugestões acatará.

Vamos seguir acompanhando o processo e na luta contra violação de direitos, cometidos pelas empresas de comunicação.

 

 

 

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