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Aprendendo com as faxinas da quarentena | 23/04/2020

 

 

Por Ivan Moraes, vereador (PSOL- Recife)

 

Querida queridagem querida. Espero que essa cartinha encontre todo mundo aí bem de verdade, de corpo e de juízo. Por aqui vou direitinho, vivendo um dia de cada vez e equilibrando o tempo entre trabalho, tarefas domésticas, refeições e ‘lives’ da galera nas redes sociais. Pequenos prazeres estão em alta, assim como grandes reflexões, mesmo que nem sempre levem para algum lugar.

Uma de minhas obrigações quarentenísticas aqui em casa é a cozinha. Tudo sobre a cozinha. Cozinhar é a parte boa. Mas além da louça (que não se acaba nunca), tem a tal da faxina uma vez por semana. E, na faxina, tem a limpeza do fogão, que não é nada limpeza.

No primeiro sábado querenteno eu olhei para a porta do forno e achei que estava diante de uma tarefa impossível. Havia uma camada de gordura amarronzada ocupando praticamente toda a superfície interna. Já não dava pra ver nada dentro. Confrontada com uma esponjada simples com detergente, a mancha nem saía do lugar. Tatuada, parecia que agora fazia parte do equipamento. Uma marca de sua história. “O que não tem solução, solucionado está”. Me veio à mente a frase que uso sempre quando quero me convencer de que algumas brigas não valem o nosso esforço.

Mas foi esfregar mais um pouco pra sentir a mudança começar. Percebi que friccionando a esponja com (muito mais) mais força, alguns pedacinhos de sujeira acabavam se deslocando. Assim terminei o primeiro dia feliz em ter reduzido o tamanho da mancha em uns 20%. Mas encucado. Se saiu um pouquinho, pode sair mais. Desafiado. Entre eu e você: uma parte de mim preferia continuar acreditando que não tinha mais jeito. Agora que eu vi que a bronca poderia ser resolvida, não dava mais pra me esconder. Eu conhecia o problema. Também sabia que a solução deveria ser possível. E que a responsabilidade era minha.

Na semana seguinte, usar desengordurante também ajudou e a mancha diminuiu ainda mais. Mas eu precisava de informação. Dei um rolé pela Internet e li dicas diversas em sites especializados. Também ouvi pessoas com mais experiência. Soluções caseiras, produtos milagrosos, várias boas dicas inclusive sobre o passo a passo de uma boa higienização fogonística. Inspirado nesse conhecimento, desenvolvi meu próprio método deixando o produto de limpeza agir por alguns minutos antes de passar a esponja e finalizando com uma boa palha de aço. Hoje eu ando tão orgulhoso desse tampo de fogão que tou até receoso de usar pra não sujar de novo. O maior segredo? Paciência. Disposição pra esfregar, esfregar e esfregar. Foco no objetivo e compromisso com um fogão brilhante e de braços abertos pra receber aquele bolo que a filhota vai fazer no final de semana.

A gestão pública é cheia de manchas em tampos de fogão. Cheia de lacunas históricas. De problemas intrínsecos à forma como nosso Estado se estabeleceu ao longo de séculos. Desigualdades tão gritantes e que acabam tornando-se imperceptíveis aos sentidos de quem teria a responsabilidade de enfrentá-las. Porque resolver é difícil. Porque se imagina que não seja possível. Porque já estão lá há muito tempo. Porque se tornaram paisagem. Porque “ninguém liga mais”.

Um dos tantos desafios do nosso mandato é identificar onde estão essas manchinhas. Entender de onde elas vieram, buscar informações sobre como removê-las. Ouvir as pessoas mais impactadas pela gordura encravada no tampo do fogão (ou pela falta de políticas públicas). Consultar quem estudou formas de eliminar a sujeira (ou de garantir direitos), encontrar no orçamento público recursos para que os materiais de limpeza corretos sejam adquiridos (ou políticas implementadas).

Foi assim quando a gente defendeu a turma do comércio popular na Conde da Boa Vista que iria perder espaço (e acabou ganhando) com a reforma da avenida. É como a gente tem atuado no processo de Revisão do Plano Diretor, na luta por políticas públicas de comunicação, na insistência pela universalização do acesso às creches e da atenção básica na saúde. É rigorosamente assim que a gente, mais uma vez com as Juntas CoDeputadas, apresentamos 18 propostas para a sobrevivência da cultura na nossa cidade e no nosso Estado. As propostas (disponíveis nas nossas redes sociais) foram subscritas por quase 500 pessoas que atuam na cadeia produtiva da cultura e aguardam agora ação do poder executivo. É assim, de mãos dadas com quem tá na luta todo dia, que a gente vem buscando direitos das pessoas em situação de rua e que a gente vem chamando a atenção para as especificidades da prevenção ao covid19 em comunidades periféricas.

Não é fácil a tarefa do poder executivo. Cabe a prefeituras e governos a missão de preparar o sistema de saúde para as milhares de internações que estão sendo necessárias, além de sensibilizar a população e buscar oferecer programas emergenciais para que a maior quantidade possível de pessoas de fato possa ficar em casa com segurança e saúde.

É nas horas de crise que a gente vê o resultado de anos (décadas?) de descaso e de prioridades invertidas no poder público. Como explicar, por exemplo, que só no Recife há mais de 60 mil famílias que não têm onde morar? Que a água não chega do mesmo jeito na cidade inteira? Que quase a metade de nós não tem acesso à saúde básica e nem mesmo recebem visitas de agentes de saúde? Que a maioria das pessoas aqui vive em comunidades de interesse social? São nada menos que 52% da população morando na chamada cidade informal.

A intensidade da crise, porém, também precisa abrir nossos olhos para a gente perceber que algumas soluções não são apenas necessárias, mas possíveis.

Foi preciso uma pandemia para que o Estado Brasileiro, impulsionado por partidos de esquerda no Congresso, entendesse que precisaria garantir uma renda básica de sobrevivência para milhões de pessoas economicamente hipossuficientes que vivem no nosso pais. E, para isso, encontrou dinheiro. Nessa mesma conjuntura, a prefeitura garantiu alimentação para famílias de crianças matriculadas na rede municipal. E, para isso, encontrou dinheiro. Foi necessária uma crise sem precedentes para que muita gente se desse conta de que há outras tantas pessoas sem os mesmos privilégios, precisando de ajuda. E – que bom! – ajudando. E para isso – que bom – encontrando dinheiro. Tenho visto relatos (tristes) de pessoas vulneráveis que estão comendo melhor do que antes, devido às doações. Longe de mim propor o assistencialismo permanente como solução, mas dá pra ver que, organizando direitinho, todo mundo come.

Prioridades vão sendo revistas, soluções (algumas até antigas) vêm ocupando espaço no debate público. Imposto sobre grandes fortunas: você já ouviu falar nisso? Financiamento do SUS: você sabe como funciona?

Ao mesmo tempo em que a pandemia nos leva a buscar a felicidade nas pequenas coisas, ela nos mostra o quanto precisamos para viver. Sem querer, o vírus acaba nos colocando ‘no nosso devido lugar’ e nos obrigando a mostrar para a gente mesmo quem a gente é de verdade para o mundo.

Ainda estamos longe (bem longe) de nos orgulhar de um Estado que tenha como prioridade real garantir a dignidade e os direitos humanos de todas as pessoas. Mas agora a gente viu que, com esforço, dá pra limpar aquela gordura amarronzada encrostada no tampo do forno da sociedade. A pergunta é: o que a gente vai fazer com essa informação?

Beijo grande pra vocês.

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